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sábado, 14 de março de 2009

Reino Unido e Brasil: parceria para inovação anti-emissão de carbono


Na última segunda e terça (9 e 10 de março), tive a oportunidade de testemunhar como é por dentro o início de um processo de transformação de pesquisa científica em produto tecnológico novo disponível no mercado.

(Obs.: este texto não pretende fazer um parnorama do evento como um todo, mas comentar impressões minhas sobre alguns assuntos específicos lá abordados, principalmente sobre estratégias de promoção da inovação tecnológica. Veja aqui a programação completa do seminário.)

Uma delegação de sete representantes britânicos de agências e empresas ligadas à inovação participou de um seminário na Unicamp (“The how of innovation through low carbon example”) para fazer contatos com pesquisadores brasileiros para transformar descobertas científicas feitas aqui em produtos comercializáveis que promovam a diminuição das emissões de carbono na atmosfera. Essas emissões são vistas como a maior responsável pelas mudanças climáticas previstas para as próximas décadas.

O evento foi promovido pela Unicamp, pela organização governamental britânica UK Trade & Investment e pela representação do Reino Unido no Brasil. A delegação foi liderada por um representante britânico especializado em fazer o meio-de-campo entre cientistas e empresários, Nick Stuart, da UK Trade & Investment.

A idéia era promover a aproximação entre o setor acadêmico e o setor empresarial, para que pesquisas com potencial de se converter em inovação tecnológica comercializável pudessem encontrar seu caminho para concretizá-lo. Nos intervalos das palestras, os presentes da platéia conversavam com os palestrantes para estabelecer contatos. Nick Sutart disse esperar que, como resultado do seminário e dos contatos ali feitos, daqui a seis meses já apareça no Reino Unido uma equipe brasileira de inovação.

Houve palestras de britânicos e de brasileiros. Várias descreviam estudos sobre tecnologias capazes de diminuir as emissões de carbono na atmosfera, desenvolvidos em empresas e instituições de pesquisa dos dois países. Outras apresentavam os seus sistemas de inovação, transferência de tecnologia e financiamento, ou seja, as estratégias de se transformar ciência em tecnologia nova disponível no mercado.


Estratégias de inovação

Sobre esse último tópico, tanto aqui como lá existem órgãos especializados em ajudar a adaptar as tecnologias para as características do mercado e em mediar o contato entre academia e empresa. Isso é necessário pois, por um lado, em geral os cientistas não têm perfil de negócio e, por outro, o empresariado não costuma ter perfil técnico-científico. Além disso, as pesquisas científicas encontram-se, em geral, em um estágio muito precoce para um estudo tradicional de potencialidades de mercado. As variáveis normalmente consideradas para avaliação de potencialidades de negócio ainda não estão presentes nelas.

No caso do Brasil, a Lei da Inovação, de 2004 exige que todas as instituições científicas e tecnológicas tenham núcleos de inovação tecnológica com essa função. Há também programas como o Programa de Investigação Tecnológica de São Paulo e agências de inovação como a da Unicamp.

Um exemplo de como se dão as primeiras etapas da passagem de um produto da academia até o mercado aparece em um artigo de Bruno Moreira e Roberto Lotufo sobre a metodologia do Programa de Investigação Tecnológica de São Paulo, publicado na página 28 da edição de julho de 2008 revista Conecta, ligada à agência Inova Unicamp. As fases descritas no texto são:

  1. Caracterização das tecnologias e de suas aplicações;
  2. Prova de conceito: avaliação da capacidade da tecnologia de aderir ao mercado – a tecnologia parece pronta quando produz o registro de uma patente, mas há um caminho a percorrer até que ela esteja pronta para a inserção no mercado;
  3. Análise de mercado: identificar qual o mercado mais propício para aquela tecnologia, o modelo ideal para a sua exploração, potenciais parceiros;
  4. Análise da viabilidade econômica: análises mais detalhadas sobre o potencial mercadológico da tecnologia, como estimativa do tamanho do mercado, estabelecimento de preços, projeção de receitas, levantamento de custos e outras.

O resultado, ao final dessas etapas, é que a nova tecnologia deve estar adequada para ser apresentada, negociada e desenvolvida dentro da empresa ou com potenciais parceiros.

Além dos contatos, outro objetivo do seminário foi o Brasil aproveitar a experiência dos britânicos sobre estratégias de promoção da inovação. Roberto Lotufo, diretor executivo da agência Inova Unicamp, no seu seminário, disse que o envio de alguns colaboradores brasileiros ao Reino Unido nos últimos anos já trouxe aprendizados importantes para o país - como a necessidade de as equipes de inovação acompanharem o processo de inserção da tecnologia no mercado não só até os estágios finais dos passos acima, mas até a assinatura do contrato com a empresa e principalmente depois, já que é comum surgirem muitas dificuldades quando a tecnologia começa de fato a ser desenvolvida e virar uma inovação.


Outros temas – e o lado social

Nas palestras dos brasileiros, a maior parte falou de pesquisas sobre bioetanol. Dois dos palestrantes eram do Centro de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), em Campinas, que faz pesquisa básica, desenvolvimento de inovações e estudos sobre o impacto do bioetanol na sustentabilidade do desenvolvimento. Um dos temas principais eram os estudos para alcançar a viabilidade econômica do bioetanol de segunda geração, ou seja, feito não só do açúcar da cana, mas do seu bagaço e da palha – além do seu aproveitamento para cogeração da energia usada pela usina.

Outros assuntos interessantes foram a energia eólica (o Reino Unido tem quase 75% de sua energia elétrica de origem eólica – e o Brasil terá seu primeiro leilão específico para contratação de energia do vento amanhã, dia 15), células combustíveis e biorrefinarias com microalgas (as duas últimas, pesquisas feitas no Brasil).

A dimensão social foi abordada apenas de forma pontual, em momentos específicos do seminário. Bastiaan Reydon, da Unicamp, comentou, no início de sua palestra, o lado social de um dos principais problemas brasileiros ligados às mudanças climáticas, que é o desmatamento amazônico – ou seja, o seu impacto nas comunidades tradicionais indígenas e não-indígenas da Amazônia e nos problemas fundiários (sem-terras). Isso me pareceu muito importante, apesar de não ser o seu tema central, pois essas comunidades são freqüentemente esquecidas, como se a floresta, fora os fazendeiros e criadores de gado, fosse mato desocupado.

Há que se notar, porém, como me lembrou um dos palestrantes em um intervalo, que o desmatamento tem uma dimensão bem mais ampla, incluindo demandas crescentes de outros países, como a de soja pela China (hoje, a soja é um dos principais fatores do desmatamento amazônico e da estruturação de parte de suas vias de comunicação voltada para corredores de exportação).

Em outro momento, ao responder uma pergunta da platéia sobre esse assunto, Felix Eliecer Fonseca Felfli, pesquisador da Bioware, lembrou a condição social do pessoal que trabalha com carvão, que, segundo ele, é “incomparável” com as tecnologias propostas pela sua empresa.


Assuntos relacionados neste blog:

Quem não inova, se trumbica – sobre a importância da inovação tecnológica para o comércio internacional

O significado dos números sobre o aquecimento global – sobre como são feitas as pesquisas do IPCC sobre mudanças climáticas e o que significam

Bons ventos para a energia eólica no Brasil – sobre o leilão do dia 15 de março sobre contratos de energia eólica

domingo, 1 de março de 2009

Aquecimento global: verdade ou mentira?

“Ciência climática vodu, sem teoria nem comprovação experimental” – é como o ex-reitor da UnB, José Carlos de Almeida Azevedo, qualificou os estudos do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) sobre o aquecimento global, em um artigo para a Folha de S. Paulo do dia 25 de fevereiro, reproduzido no JC E-mail. Esses estudos são a principal fonte de conhecimento sobre o fenômeno, hoje.

No entanto, seus argumentos são estranhíssimos e simplesmente não parecem se referir ao que faz o IPCC. Ele começa o artigo dizendo que o Painel não previu coisas como neve no Oriente Médio, na Grécia e no deserto dos Estados Unidos, ocorridas em 2008 e 2009.

Ora, isso não tem nada a ver com o que o IPCC faz. O trabalho do IPCC não é fazer previsões locais e para futuro imediato desse tipo, como se fosse o “homem do tempo” na TV. É fazer projeções de médio e longo prazos (usualmente cem anos) sobre características globais do clima, como variação da temperatura e do nível dos oceanos. E são várias projeções, dependendo do modelo e do cenário que se usa. Modelos referem-se a diferentes teorias sobre funcionamento do clima e cenários são hipóteses sobre a evolução futura das emissões de CO2.


Confusão com escalas de tempo

Em seguida, Azevedo diz que “satélites e sondas meteorológicos também comprovam que, nos últimos 13 anos, a temperatura ficou estável nos dez primeiros e caiu nos três últimos.” Ora, como dito acima, o IPCC faz previsões de médio e longo prazo. O importante é se há uma tendência de aquecimento em longo prazo (décadas), e não se a temperatura caiu durante um ou dois anos. A temperatura não sobe o tempo todo, há variações, pois ela depende de inúmeros fatores. É como um gráfico de subida da inflação ou da bolsa: há sobes e desces momentâneos, mas há uma tendência geral.

Depois dessa confusão entre os prazos com que o IPCC lida e os prazos curtos de alguns anos, o autor vai ao extremo oposto e diz que o aquecimento e a subida do nível dos mares acontece desde há uns 20 mil anos, desde o fim da última Era Glacial. É verdade, mas, de novo, há uma confusão sobre a escala de tempo. Os prazos das projeções do IPCC não são de dezenas de milhares de anos, são de coisa de um século. O que o IPCC diz é que houve uma inflexão, uma forte aceleração, no aumento da temperatura que já vinha acontecendo em média há milhares de anos, e associa essa inflexão à ação humana.


Por que teste indireto se há testes diretos?

Em seguida, o ex-reitor pergunta-se “que modelos climáticos os ‘videntes’ do IPCC processam nos seus computadores”, se “não existe teoria do clima”. Como assim, não existe teoria do clima? Como então se faz as previsões climáticas para os próximos dias que lemos nos jornais? E os modelos, são detalhadamente explicados nos relatórios do IPCC e nas fontes que cita, para quem quiser ver. E, se há modelos, há teoria. Modelos baseiam-se em teorias.

Azevedo apóia-se em alguns estudos. Cita um de Koutsoyiannis e outros autores, de 2008, que, segundo ele, confirma que "o desempenho dos modelos é fraco; em escala de 30 anos (...) as projeções não são confiáveis e o argumento comum de que o seu desempenho é melhor em larga escala não tem fundamento". Na introdução do seu trabalho, Koutsoyannis diz que chegou a essa conclusão testando os modelos que o IPCC usa: aplicou-os ao passado ao invés de ao futuro e verificando se eles conseguem se aproximar razoavelmente dos registros climáticos dos últimos 100 anos que já existem. A conclusão foi negativa. O estudo está aqui.

É uma proposta interessante, mas seria mais interessante ainda se Azevedo tivesse citado testes mais diretos, como observar se as previsões que o IPCC fez em 1990 se confirmaram. Afinal, já se passaram 18 anos e isso já é possível de ser feito. Outra vantagem de um teste direto como esse é que ele estaria baseado não em simulações computacionais feitas por um único grupo de cientistas (Koytsoyiannis e os co-autores do artigo, que fizeram as projeções para trás), mas pelo IPCC como um todo, que tem cerca de dois mil pesquisadores de diversas instituições espalhadas por vários países.

E há pesquisas que fazem isso e que têm conclusões opostas às de Koutsoyiannis. Um exemplo. Em fevereiro de 2007, um artigo publicado na Science pelo grupo de Stefan Rahmstorf mostrou que, entre 1990 e 2006, mediu-se um acréscimo de 0,33 graus Celsius na temperatura média dos oceanos. Isto estava dentro do conjunto de projeções do IPCC. Estava, porém, perto das mais pessimistas. Já a elevação do nível dos mares, segundo o mesmo artigo, foi de 3,3 mm/ano. Aí houve discrepância com o IPCC: este previa um máximo de 2 mm/ano. Porém, a discrepância, ao invés de contradizer a idéia da elevação do nível dos mares, a aprofunda, pois o aumento medido foi maior que o projetado pelo Painel.


Palavra x contexto

Continuando, Azevedo tenta contrapor duas afirmações aparentemente contraditórias de um dos meteorologistas do IPCC, K. Trenberth. Em 2007, ele disse que “não há previsões climáticas feitas pelo IPCC. E nunca houve.” Ao mesmo tempo, os “xamãs” do IPCC dizem que há consenso científico sobre a influência do CO2 no clima”.

A primeira frase, a de Trenberth, foi localizada pelo jornalista Marcelo Leite, que mostrou a fonte em um artigo seu na Folha de S. Paulo de hoje (01/03), reproduzido no site do MRE. Vem de um pequeno texto de Trenberth num blog da revista britânica Nature. E a frase foi posta lá simplesmente para mostrar a diferença entre uma “previsão” e o que o IPCC faz. Isso é explicado logo após a frase de Trenberth, quando ele continua: “O IPCC, ao contrário, divulga projeções do clima futuro do tipo ‘o que aconteceria se’, que correspondem a certos cenários de emissão [de CO2]”. É um sentido bem diferente do que transparece pelo contexto do artigo de Azevedo. Uma das diferenças entre projeção e previsão é que as projeções dependem do modelo e do cenário. As projeções para elevação do nível dos mares até 2100, por exemplo, são seis e variam de 40 cm, no cenário mais “otimista”, a 60 cm, no cenário mais pessimista.

Além disso, cada tipo de projeção (como a elevação do nível dos mares) e de associação causal (como a associação da ação humana à elevação do nível do CO2) está associada com faixas de probabilidades. Os relatórios do IPCC estão repletos de expressões referentes a essas probabilidades, cujos significados precisos são explicados no início dos documentos. São as seguintes: “virtualmente certo” (probabilidade maior que 99%), “extremamente provável” (entre 95% e 99%), "muito provável" (entre 90% e 95%), “provável” (de 66% a 90%), “mais provável que improvável” (de 50% a 66%), “aproximadamente tão provável quanto improvável” (de 33% a 50%), “improvável” (de 10% a 33%), “extremamente improvável” (entre 1% e 10%) e “excepcionalmente improvável” (menos que 1%).

O próprio IPCC dizia, até 2007, que a probabilidade de a ação humana ser responsável pelo aumento das emissões de CO2 estava entre 67% e 90% (“provável”). Até então, a difusão de que havia uma "certeza total" sobre isso era um problema da relação entre academia e imprensa. No relatório de 2007, porém, a probabilidade para isso subiu para entre 90% e 95% (“muito provável”). A razão foi a adição das pesquisas dos 6 anos anteriores na compilação. Isto não é exatamente o comportamento de um “xamã”.

Uma descrição mais detalhada sobre como funcionam os estudos do IPCC, incluindo a diferença entre modelos e cenários, está em outro texto deste blog.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

O significado dos números sobre o aquecimento global

Uma matéria de hoje (22) na Folha de S. Paulo sobre o aquecimento global me levou a destrinchar um pouco o significado dos dados sobre isso e como eles são obtidos. Consegui fazer um pequeno esquema mental sobre isso e gostaria de dividi-lo com os leitores. O texto abaixo acabou virando uma exposição sobre a natureza de boa parte da pesquisa científica em geral.

Auxiliou-me nisso alguma experiência que tive com simulações (cálculos) computacionais quando eu fazia pós-graduação em física. Essas simulações têm características comuns com as da meteorologia. O fato de o esquema ser partilhado por muitos tipos de pesquisa científica também ajudou.

A matéria da Folha, escrita por Eduardo Geraque, fala sobre os resultados de uma pesquisa apresentada por Anny Cazenave em uma reunião da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), que terminou na semana passada. A pesquisa mediu a velocidade de subida do nível dos mares entre 1993 e 2008 e o resultado (3,4 mm por ano) deu quase o dobro do que se mediu entre 1950 e 2000 (1,8 mm por ano)! Além disso, sua previsão de quanto os mares deverão subir até 2100 (1,8 metro) é mais do que o dobro das previsões “oficiais” do IPCC para aquele ano (na pior das hipóteses, 60 cm). Vejamos o significado disso.


O que é o aquecimento global e o que ele faz

Primeiro, algo sobre a natureza do aquecimento global. Ele é causado por emissões, para a atmosfera, de gás carbônico (CO2) e outros gases, chamados “gases-estufa”. As medidas indicam que sua quantidade vem aumentando fortemente durante o século XX. Esse aumento "desregula" a principal “função” desses gases, que é manter o planeta aquecido, numa temperatura boa para a vida – o chamado “efeito-estufa”. A temperatura média da Terra, então, começa a subir.

Isso não tornará a vida inviável, mas deverá provocar mudanças no mínimo bastante incômodas. Além de desencadear diversas mudanças climáticas de vários tipos, o aquecimento deverá também elevar o nível dos mares, por causa do derretimento do gelo das calotas polares e da dilatação térmica da água. A elevação dos mares deverá inundar várias cidades costeiras nos próximos séculos. O IPCC avalia que a probabilidade de o aquecimento global ser causado por emissões de gases estufa causadas pelo ser humano é de mais de 90%.


O que faz o IPCC

Bem, IPCC é o Painel Internacional sobre Mudanças Climáticas, um órgão da ONU criado em 1988, dedicado a elaborar sínteses das pesquisas sobre isso feitas pelo mundo todo, tentar identificar as suas causas e sugerir ações baseadas nessas avaliações. “Painel” é um conjunto de cientistas de várias áreas para estudar certo assunto. O painel do IPCC tem cerca de dois mil pesquisadores. As principais sínteses – os “Relatórios Avaliativos” – são publicadas de seis em seis anos, tendo o último sido em fevereiro de 2007.

O IPCC pega os estudos científicos dispersos pelas publicações especializadas (como os divulgados por Cazenave) e faz projeções e médias para extrair do conjunto uma avaliação geral de como andam as coisas no clima mundial e o que os governos poderiam fazer para diminuir os riscos e os efeitos de uma catástrofe ambiental.


O que fazem as pesquisas individuais

Cada um dos estudos que o IPCC coleta fazem basicamente três coisas:

(a) medidas
(b) projeções (previsões)
(c) correlações

O resultado divulgado pelo grupo de Cazenave fez as três.

Muitos artigos fazem também sugestões sobre o que fazer, que estratégias adotar, baseados nos seus resultados.


(a) Medidas (que devem ser devidamente interpretadas)

As medidas podem ser de temperaturas, níveis dos mares, concentração de CO2 na atmosfera etc. Elas podem ser:

(1) medidas feitas no presente ou
(2) determinações sobre como eram as coisas no passado, antes dos primeiros registros de temperaturas, nível dos mares etc. (em geral, antes do século XX)

As do estudo apresentado na AAAS são medições diretas do nível dos mares, feitas no presente, de 1993 a 2008, com o auxílio de satélites artificiais.

Para as medidas sobre como eram as coisas no passado, é preciso procurar em lugares que possuem registros de como elas eram. Por exemplo, a composição química do interior de recifes de corais dá indicações sobre a temperatura dos mares nos séculos passados. Isso porque os corais vão crescendo bem lentamente e seu metabolismo e sua composição são influenciados pela temperatura da água.

As medidas, especialmente as indiretas, devem ser interpretadas para poderem significar alguma coisa. No caso acima dos corais, por exemplo, deve haver uma teoria por detrás que diga como associar a composição química dos corais com a temperatura. Aí, entram os estudos dos oceanógrafos e biólogos (é por essas e outras que as mudanças climáticas são um estudo fortemente interdisciplinar). Ou seja: observações são interpretadas de acordo com teorias.


(b) Projeções

Com base nas medidas, fazem-se as projeções. Estas são feitas com programas de computador. Alimenta-se os programas com os resultados das medidas e, após algum tempo, o computador produz dados sobre temperatura, nível dos mares, concentração de CO2 etc. para o futuro. É daí que vêm as previsões de quanto o nível do mar vai subir nos próximos cem anos ou mais. Os cálculos chamam-se “simulações computacionais” – elas “simulam” de forma aproximada o comportamento da Natureza. Os programas dos computadores usam equações que são produzidas por estudos teóricos – que, por sua vez, levam em conta os resultados das medidas.

Acontece que os cálculos para se fazer essas projeções têm duas complicações principais.


Os cenários

Primeiro, o que vai acontecer no futuro é influenciado pelas transformações futuras da tecnologia, da economia e da sociedade. Evidentemente, isso é desconhecido. Então, faz-se vários “cenários”, ou seja, vários conjuntos de hipóteses sobre isso. As diferenças entre os cenários nos estudos sobre mudanças climáticas têm a ver principalmente com hipóteses sobre o desenvolvimento econômico do mundo. Por exemplo, se a economia passar a se concentrar rapidamente no setor de serviços, o setor industrial pode ser aliviado e, assim, poderá haver menos emissões de gases-estufa – e menos aquecimento.


Os modelos

Segundo, os cálculos são terrivelmente extensos, mesmo para os computadores atuais. A previsão meteorológica é uma área que demanda um esforço computacional verdadeiramente brutal. É impossível fazer as contas com precisão total – para isso, seria necessário um tempo muitas vezes maior que todo o tempo transcorrido desde o Big-Bang até hoje...! É preciso fazer simplificações. Imagine se a forma de todas as montanhas do mundo tivesse que ser colocadas nos programas...!

Algumas coisas podem ser simplificadas sem grandes mudanças no resultado final. Outras, não. Por exemplo, é claro que os detalhes do relevo não devem ser importantes – eles influenciam pouquíssimo o resultado final dos cálculos. Porém, os oceanos não podem ser ignorados, eles são grandes demais.

Isso é um exemplo simples. Em geral, as coisas são muito mais complicadas e não é fácil saber que simplificação pode ser feita e que efeitos elas terão no resultado final. Por isso, há vários “modelos” diferentes para tratar o assunto. Cada um deles dá peso diferente para vários parâmetros. A palavra “modelo”, na verdade, tem significado mais geral na ciência e é fundamental em qualquer pesquisa científica. Trata-se de um conjunto de hipóteses sobre o objeto de estudo, sem as quais nenhuma pesquisa consegue funcionar.

A escolha dos modelos não é arbitrária. Para ver se são bons, pode-se:

(a) Testá-los: compara-se previsões baseadas nos modelos com resultados que já existem.
(b) Comparar as previsões com vários modelos diferentes. Se houver divergência demais, há problemas com pelo menos alguns deles.
(c) Esperar que o tempo passe e ver se as previsões se confirmam.


Os métodos computacionais

Além das simplificações no que deve ser colocado ou não como dado de entrada no programa do computador, em geral as próprias equações usadas pela máquina têm que ser simplificadas. Cada um deles têm a ver com o que eu poderia chamar de um “método computacional”. Mas, no caso da meteorologia, suponho que haja razoável consenso sobre que método de cálculo é melhor, já que não vejo menções a isso.


(c) Correlações

Correlações entre as observações podem ajudar a identificar causas de fenômenos. Um exemplo muito simplificado: se a concentração de CO2 na atmosfera aumenta mais ou menos paralelamente ao aumento da atividade industrial, é bem provável que haja alguma ligação entre as duas. Em geral, as associações são muito mais complexas e exigem tratamentos estatísticos sofisticados e também – como as projeções – teorias, modelos e métodos computacionais.


Os resultados das pesquisas variam

Assim, diferentes trabalhos científicos podem dar diferentes resultados para a mesma coisa. Por exemplo, duas pesquisas podem mostrar resultados diferentes para as previsões do nível dos mares. Essa diferença, em geral, é devida à soma de fatores como estes:

(a) métodos de medidas diferentes produzem resultados diferentes para o mesmo parâmetro. Medir o nível dos mares com satélites artificiais é diferente de medi-los da praia.
(b) teorias diferentes para interpretar as medidas. Teorias distintas para associar composição de corais à temperatura dos mares podem produzir diferentes temperaturas “medidas indiretamente”.
(c) parâmetros diferentes colocados no programa do computador. Um cientista pode tentar prever a temperatura a partir da concentração de CO2 na atmosfera; outro pode usar dados sobre temperaturas de séculos passados obtidas em corais; outro pode usar os dois tipos de dados.
(d) cenários diferentes.
(e) modelos diferentes.
(f) métodos computacionais diferentes, se for o caso.

Muitas vezes, pode-se determinar quais desses fatores são mais relevantes. Em outras situações, é preciso esperar estudos mais aprofundados para isso. Após se ter determinado os porquês das diferenças, pode-se fazer comparações melhores entre eles e articulá-los para produzir previsões médias, como faz o IPCC. Porém, o IPCC costuma separar os resultados de acordo com o cenário e, às vezes, também de acordo com os modelos.


O IPCC faz várias projeções dependendo do cenário e do modelo

Assim, o IPCC não faz só uma projeção, faz várias, e cada uma delas corresponde a um tipo de cenário e modelo. Além disso, às vezes, tira-se uma média entre os modelos e discrimina-se o resultado apenas de acordo com os cenários. Por exemplo, o Relatório Avaliativo do IPCC de 2007 mostra seis números diferentes para a elevação do nível dos mares até 2100, cada um associado com um cenário. Eles variam de 40 cm, no cenário mais “otimista”, a 60 cm, no cenário mais pessimista (vide página 821 do capítulo 10 do Quarto Relatório Avaliativo do IPCC (o de 2007), volume do "Grupo de Trabalho I: "As bases científicas físicas" ).

Quão confiáveis são os dados do IPCC? Uma maneira de saber é esperar o tempo passar e verificar em que extensão suas previsões se confirmam. Ora, algum tempo já passou desde o primeiro Relatório Avaliativo, de 1995. Em fevereiro de 2007, um artigo publicado na Science mostrou que, entre 1990 e 2006, mediu-se um acréscimo de 0,33 graus Celsius na temperatura média dos oceanos. Isto estava dentro do conjunto de previsões do IPCC. Estava, porém, perto das projeções mais pessimistas. Já a elevação do nível dos mares, segundo o mesmo artigo, foi de 3,3 mm/ano. Aí houve discrepância com o IPCC: este previa um máximo de 2 mm/ano. Há uma reportagem de Marcelo Leite na Folha de S. Paulo com informações interessantes sobre isso.


Os dados divulgados na AAAS

Aqui, já é possível situar melhor o significado dos dados de Cazenave. Eles são um dos que deverão ser incluídos pelo IPCC no seu próximo relatório avaliativo, que deverá sair em 2012 ou 2013, e em outras publicações que aparecerão no caminho.

A pesquisa incluiu medidas, projeções e correlações. Algumas delas:

(a) as medidas indicam que a velocidade de subida do nível dos mares entre 1993 e 2008 (3,4 mm por ano) é quase o dobro do que se mediu entre 1950 e 2000 (1,8 mm por ano). Mas as divergências com os dados do século XX são devidas tanto à diferença nos métodos nas medidas quanto a um aumento real na velocidade da elevação dos mares.

(b) suas projeções com computadores indicam que a elevação da linha d'água até 2100 será de 1,80 metro, é o triplo da prevista pelo IPCC. Isso é surpreendente.

(c) correlações com outros dados indicaram que as causas da elevação do nível dos mares é mais a expansão térmica da água (50%) do que o derretimento do gelo das calotas (40%)

Devemos, porém, lembrar que isso é apenas um dos muitos cálculos já feitos, que usam um certo conjunto de medidas e um certo modelo para fazer previsões. Pode ser que as medidas e o modelo sejam melhores que os outros e esse resultado seja mais representativo. Mas temos que esperar algum tempo para os especialistas poderem cotejar esse resultado com os demais.

Obs.: Agradecimentos a Roberto Takata, por sugestões de correções no texto.